23. REFÚGIO DOS ESQUECIDOS
- E. J. Eluan Jr
- 26 de set. de 2020
- 6 min de leitura
Atualizado: 16 de fev. de 2021
A madrugada ainda guardava os barulhos da noite quando Veothar saiu da casa de saúde, a contragosto do cuidador, que recomendava mais repouso, além das 16 horas que havia dormido profundamente, a ponto de seu espírito ter vivido experiências reveladoras no entremundos.
Encontra um cantinho. Ainda está escuro, mas prestes a amanhecer, e ele se acomoda na grama de um chão ainda molhado do sereno, no espaço discreto que encontrou entre duas das rodas de casas da tribo. Pega em sua bolsa o papel e o fumo que sempre leva. Enrola um cigarro, busca os fósforos, encontra – tudo estava intacto em sua bolsa – acende o fumo e dá sua primeira tragada antes da aproximação de um dos habitantes.
- Olá!
Ao ouvir o cumprimento do estranho, se assusta. Já ia se levantar, forçando um pouco a perna esquerda, que era a mecânica. Desajeitado, devolve o cumprimento.
- Opa! Olá! Não percebi sua chegada...
- Não, não te preocupa... não precisa levantar, por favor. Até porque vou te acompanhar no fumo aí, sentado também – e o senhor, vestido de preto, com chapéu e um cachimbo na boca, comum por ali em Insag, também se acomoda sentando-se ao lado de Veothar.
- Tenho mais do meu fumo aqui. É de Nemansky, mas é bom – fala Veothar que já mexia na bolsa em busca do saquinho de fumo enquanto falava.
- Não, muito obrigado. O meu é daqui, produzido entre nós aqui em Insag, é bem natural. Não se incomode, por favor – fala enquanto se acomoda.
Veothar tinha muitas coisas na cabeça, não estava preparado para uma companhia, nem tão pouco para prosas que não fossem sobre assuntos que minavam sua mente. Acabara de vir de uma viagem perturbadora e de acordar de sonhos reveladores. Está constrangido, ele era um estranho visitante ali. Permanece em um silêncio encabulado, sem um assunto em mente. O homem, a seu lado, muito mais à vontade, depois de alguns minutos apenas apreciando seu fumo, é quem puxa assunto.
- Olha só, aquele ali é o Cassandro. Ele é especialista na plantação e colheita do nosso tabaco. Veio de fora. Não é um descendente kampfa. Era um cara rico. Era alto diplomata, de fora de Lisar. Veio se esconder aqui. Veio lá de Catô. País bonito aquele! Ali sim, se planta tabaco naturalmente. Lá é mais ao sul, tem temperatura melhor pra isso. Mas aí ele acabou achando um jeito de plantar aqui – e solta uma risada tranquila -, não sei que diabo que ele fez. Mas deu certo. Também, teve ajuda daquele ali, ó!
- Onde? - Pergunta Veothar, se mostrando interessado em assuntos que desfocavam por total o que sua mente tentava mapear antes da chegada daquele senhor estranho.
- Ali! O que está ainda na porta da casa azul. Ele vai daqui a pouco ligar o motor da energia. Ele é um dos agrônomos que a Agnar trouxe para dar um jeito na contaminação da peste. Acabou ajudando o Cassandro a plantar fumo.

E puxa mais uma boa tragada do cachimbo. A essa altura, Veothar já dava toda a atenção para aquele senhor de papo fácil.
- Aqui tem de tudo pra se viver. Tem alerpa em abundância para fazer roupa, tem raiz de mandiva que dá farinha, pão, massa, comida, caldo. Tem animal que dá leite, carne, couro. Tem fumo, tem fruta, tem tudo que o Mesag dá... peixe de todo tipo.
- Quanto tempo o senhor está aqui?
- Ah, meu amigo, desde o começo. Desde o comecinho.... Muita gente foi chegando aqui. Muita gente boa se juntou. Outros nem tão bons (mais uma risada). As pessoas são assim, tem defeito, né? Trazem problemas. Mas cada um traz qualidades que ajuda todo mundo. Olha só esse agrônomo... esqueci o nome dele... Bartong! É, o Bartong. Cara chato, meio metódico e implicante. Era da universidade, aqui de Nemansky mesmo. Cria confusão por migalha. Mas se não fosse ele e o outro amigo dele, cientista também, muita gente tinha morrido aqui. E pior. A gente não teria esse fumo! – e solta uma boa gargalhada.
Veothar passa a ficar mais à vontade na companhia daquele homem. E ouve as histórias de Insag, atentamente, enquanto o céu começa a clarear um tom alaranjado e a movimentação em torno aumenta. Os cheiros passam a chegar também. O homem vai contando histórias de famílias que se instalaram ali depois dos fundadores. Gente que vem de Nemansky, de diferentes partes de Lisar, e até de outros países. Conforme o senhor fala, Veothar começa a ouvir o barulho da moenda de farinha que vem das casas da proximidade. Cheiro de massa assada e de bebida quente em infusão vão até lhe dando a fome do desjejum. Carroças passando com frutas, gente circulando, cachorro latindo e o senhor contando suas histórias.
- ...e sabe por que estão todos aqui, meu amigo? Neste lugar isolado. Sabe por que se esconderam aqui? – pergunta o senhor.
- Por que? – Veothar vira-se para olhar para ele com mais atenção, curioso pela resposta enquanto sopra com o canto da boca a fumaça do fumo.
- Porque apenas os esquecidos sobreviveram à guerra.
Veothar o olha pensativo. Fica um certo silêncio. Nesta pausa, Veothar lembra do que não viveu durante estes 35 anos. E lembra de acordar e ver uma cidade completamente desolada, sobrevivendo sobre os escombros do que um dia já foi. Em sua memória havia uma gente e uma Nemansky que desapareceram 35 anos depois. Lembrando da cidade que viu quando acordou, pensa – quantos ali não gostariam de estar em Insag? E o senhor continua.
- Essa gente já era esquecida, Veothar. Ou tinham destaque e precisavam ser esquecidas. Os que estão em Nemansky lutando para ter a vida que tinham antes, estão perdendo a luta. Os que estavam dispostos a se adequar a uma nova vida estão encontrando soluções. Insag atraiu gente valorosa: os mais desprovidos das ambições que antes tinham. Em troca, Insag os tornou invisíveis para a guerra. Mais do que alguns já eram... Depois, Insag ganhou fama. E muitos que tinham apenas ambições de ganho e não de doação tentaram chegar. Mas você viu. Você enfrentou as forças que protegem Insag. Essas mesmas forças agora nos ameaçam.
Veothar o fita com curiosidade. Uma nesga de luz alaranjada do alvorecer chega neles. Tem a impressão de que o homem está mais jovem do que quando chegara. Estava quase que hipnotizado por ele e uma grande curiosidade toma forma em seu coração – O que sabe sobre a guerra? – foi a pergunta que conseguiu formular.
- Sei o que pude saber, mas pouco... Meu pai soube muito mais. Mas o que sei é que todos que eram potentes naquela época, foram dizimados. As periferias esquecidas, sem importância, sem poder, foram poupadas. Os países periféricos, as cidades desimportantes desses países periféricos. As regiões paupérrimas das cidades desimportantes dos países periféricos.... quanto mais desqualificado para os padrões de poder que os comandantes almejavam, menos importância a guerra deu. Insag é o refúgio dos esquecidos. Dos kampfas, dos cientistas sem oportunidade; dos homens que já foram grandes, mas que souberam desaprender e reaprender uma nova forma de viver; dos que nunca tiveram uma oportunidade nas grandes empresas, dos meros subalternos da sociedade, dos que foram sempre invisíveis a todos. Esta é a era dos esquecidos. Agora eles são o comando de um novo mundo.
Enquanto fala e já sob a luz do sol que aparecia no horizonte escondido pela floresta, o homem levanta-se. Agora torna-se perceptível algo inusitado: a luz atravessa seu corpo. Veothar já estava atraído por completo por aquele ser.
- Mas agora você sabe, Veothar. E há alguém aqui de Insag que sabe também. Esta comunidade já não é mais um lugar esquecido. Há interesses poderosos, ainda velados.
Agora é Veothar que se levanta, surpreso e atento. – quem é você?
- Chegou a hora de Insag ser revelada ao mundo, sem ser engolida por ele. Insag não precisa ser um lugar no planeta, não precisa ser a tribo, mas um lugar no coração, uma forma de ser em vida. Insag precisa ser protegida.
- O que devo fazer? Me ajude.
- Há alguém lá embaixo que é a chave dessa proteção. Precisa salvá-la, assim como Marieh e a gente de Insag. Aqui, dentre os esquecidos do mundo, há um recomeço. Precisam de proteção.
Ele vira-se e se afasta lentamente, deixando o mensageiro do divino atônito, com o fumo pendente na boca. – Qual seu nome? – pergunta num lampejo.
- Josah dos Nasir, meu caro. Prazer! - e solta uma risada leve conforme se afasta lentamente e some magicamente em meio à luz do alvorecer.
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