24. RELICÁRIOS DOS ANCESTRAIS
- E. J. Eluan Jr
- 5 de out. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 16 de fev. de 2021
Veothar permanece estático por alguns instantes, olhando para a direção do sol que alvorece. Mesma direção para onde o espírito de Josah caminhou e desapareceu ofuscado na luz deste mesmo sol. Revive em sua memória cada palavra daquela conversa. Não queria esquecer. Não podia esquecer.
Alguém em Insag sabe dos Sartânios, além dele próprio; a chave para a proteção da Tribo está lá embaixo, foi o que Josah disse. No sonho que teve com o meta-humano... ele disse que identificara alguém especial de Insag. E que este alguém desapareceu e podia estar lá embaixo... “a chave para a proteção”.
Precisa organizar suas ideias... pensamentos aparecem em sua mente em frases que flutuavam, umas sobre as outras, sem controle. “Os sartânios protegem a entrada de estranhos em Insag”, “amedrontam visitantes com ilusões, tormentos”; “a paz na tribo é mantida pelo pacto”; “Insag é uma camuflagem e um escudo para a base da Aliança Escorpião”; “houve um pacto entre Josah e sartânios”. “Agnar soube do pacto, procurou ajuda”. “Quem mais sabe desse pacto? E os reféns? Quem são?”; “meta-humanos devem atacar a tribo a qualquer momento”, “proteger Marieh, proteger toda a gente de Insag” “Há alguém lá embaixo que é a chave dessa proteção”.
Enquanto sua mente tecia frases e pensamentos, mal se deu conta que passou a caminhar para dentro da tribo, levando sua bolsa nos ombros e o fumo na boca.
Olha sem atenção o vai e vem de homens e mulheres, levando carros de mão, abrindo casas, tocando animais... Ouve o barulho do motor da energia aumentar e o som da moenda diminuir. Os odores e barulhos da manhã cercam a caminhada lenta e desatenta de Veothar.
Mas além dos vivos, ele vê também as energias dos desencarnados brilhando aqui e acolá. Alguns são manchas nubladas que atravessam o espaço, outros têm formas mais definidas. E um determinado ponto na tribo, mais ao longe de onde Veothar se encontra, concentra uma boa quantidade dessas energias. Isso repentinamente tira-o de suas elucubrações.
Vai para a direção desse local em uma passada mais apressada, apesar de manca, por conta da perna esquerda mecânica, que substituiu a sua natural que a guerra tirou.
O tempo parece passar lento, bem mais lento que no momento que teve aquela conversa tão agradável com Josah. O sol não quer subir, mantem seus raios amarelados iluminando aquele lugar, onde outras luzes, as do mundo invisível, entrelaçam-se com as solares.

É um templo. Rústico, como tudo naquela tribo. Simples, mas de uma beleza incrível. Guarda, em vários degraus curvos que o rodeia, uma série de caixas, vasos, recipientes, um mais belo que o outro. Alguns em madeira, outros em barro, outros em metal... Todos com gravuras, desenhos, palavras.
O lugar é todo circular e ocupa boa parte da roda central da tribo. Uma construção simples em madeira: uma árvore de tronco grosso faz o papel de pilar central de onde parte o resto da estrutura coberta por folhas ressecadas. Os degraus, que são prateleiras, circundam quase toda a borda do círculo. Lá dentro, algumas pessoas caminham, meditando e cantarolando, em volta do grande tronco central.
Ajoelhada, diante da grande sequência de estantes com tantos recipientes, está Marieh. E ao redor dela, uma revoada de seres iluminados que se misturam e formam um forte redemoinho de luzes em volta da menina. Só Veothar vê aquilo.
- São relicários! Relicários de nossos ancestrais - a voz que interrompe a contemplação extasiada de Veothar veio de trás, era Monsenir. Veothar se volta para ele, o cumprimentando com um forte aperto de mãos – Estávamos te procurando! Tudo bem contigo?
- Sim, tudo bem! - Veothar responde e sorri educadamente antes de matar sua curiosidade. - Todas estas caixas, vasos... São então relíquias de pessoas que se foram. Pessoas de Insag?
- Alguns são de ancestrais, pais, avós, bisavós, de gente de Insag. Outros são de pessoas que moraram em Insag e morreram. E muitos deles se foram devido à peste da espaço, irradiação das bombas, outras doenças que chegaram junto com os seres que vieram para a guerra...
- Andir, Amir, Josah... Devem ter os relicários mais lindos de todos.
- Não. Não há diferença. Nem ao menos são identificados. Apenas as pessoas da mesma casa sabem quais são. Fazem os relicários mais bonitos que podem e os colocam em algum lugar no templo, geralmente próximos aos dos outros familiares. Muitos acabam sendo reconhecidos pelas fotos, flores, frases e mensagens colocados próximo. Mas não têm nem lugar especial nem material especial para os chefes. Todos são iguais, como em vida.
- Marieh. Ela é especial.
- Sim, ela é – Monsenir concorda, mas não no mesmo sentido que Veothar quis dizer – Uma menina sensível e geniosa ao mesmo tempo, apesar de introvertida. Ela colocou ontem o relicário de Agnar junto do de seu pai. E junto do relicário da mãe de Agnar.
Veothar reflete por alguns segundos antes de formular a pergunta.
- Mãe de Agnar? Mãe de Agnar não é a mãe de Marieh?
- Não, não é. A mãe de Agnar entrou em conflito com Josah. Pouco antes da fundação de Insag. Voltou a Nemansky. Agnar a visitava quando jovem. Há oito anos faleceu. Complicações com radiação.
- E a mãe de Marieh?
- Também não está mais entre nós.
Veothar faz uma expressão de pesar e volta a observar a menina, concentrada em seu canto, frente às suas valiosas relíquias enquanto outras pessoas se juntam na pequena procissão circular que vai se formando.
- Não deve estar sendo fácil para esta menina. Com certeza está meditando também frente ao relicário de sua mãe. A morte da irmã, de certo, acentua a saudade de todos.
- Não há relicário de Haia – responde Monsenir. – Não sabemos se ela morreu. Nunca a encontramos. Nem viva, nem morta. Haia desapareceu misteriosamente.
A fala de Monsenir causa surpresa e choca-se com pensamentos latentes de Veothar: “Alguém especial desapareceu e pode estar lá embaixo”; “Há alguém lá embaixo que é a chave dessa proteção”.
Comentarios