31. FRAQUEZAS E AMBIÇÃO
- E. J. Eluan Jr
- 28 de nov. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 7 de fev. de 2021
Humilhar, amedrontar, enfraquecer, monitorar, controlar, subjugar e depois tentar atrair para si usando o instinto competitivo de poder, fraqueza da maioria de nós. Esse é o jogo deles. E Veothar não consegue jogar contra, porque não sabe como combater; porque sente a vertigem daquele lapso de tempo; porque sente medo, revolta, angústia com toda aquela situação covarde.
Sente a força daqueles seres que vagam pelas galáxias em busca do controle do hélio primitivo, ambiciosos em ter aquele poder e dominar os planetas por onde andam. Se julgam merecedores em deter áreas do universo, assim como o Cinturão de Órion, mas incapazes de entender o que motiva esta liga de planetas que veem como adversária.
Então são movidos por uma revolta contra as raças que fazem o Cinturão de Órion. Por ter descoberto que havia uma energia tão poderosa no universo e que era escondida deles. Por serem julgados inferiores em comparação a outras raças. Por terem sido impedidos, por estes povos que controlam o universo, de terem acesso a todas estas possibilidades que o hélio primitivo traz...
Entendendo um pouco mais estes seres, Veothar consegue compreender então: nem eles nem o povo de Sideron deveriam, de fato, ter acesso a todo este poder que a tecnologia dominada por Orion traz. Não deveriam! Não sabem lidar! Não estão prontos! A competição, tão intrínseca no modo de pensar na maioria das pessoas de Sideron e da Aliança Escorpião, transforma grandes forças da natureza em armas letais contra quem veem como mais fracos e como adversários dentro dessa mesma competitividade. Precisavam, sem dúvida, dar um passo a mais no modo de ver e sentir o mundo para merecer esse poder. Percebe que são fracos enquanto raça, por se lambuzarem em ambições tão pequenas. Assim como estes sartânios.
Eram pensamentos que só entristeciam mais ainda a alma de Veothar. Mas, do corredor, entra na sala de jantar um alento contagiante ao combalido mensageiro do divino.
Agnar dos Nasir chega para os olhos dele, junto com muitos outros espíritos ancestrais. A alma de Agnar estava desperta, viva, brilhante e poderosa. Enche de boa energia aquela sala de jantar escurecida, triste e pesada. Ela olha diretamente para Astozeu, que não a vê. Depois olha para Veothar e sorri.
O sartânio próximo a Veothar avança para segurar seus braços. Ele resiste ao máximo, luta sem forças e é imobilizado com facilidade. O outro também avança em sua direção.
- Aqui, tu és um velho! – o sartânio debocha do último encontro que tiveram e soca fortemente o rosto do mensageiro do divino. Manipula o aparelho que envolve o pescoço de Veothar, que está tonto do forte impacto da mão do invasor e da vertigem que sente. Ao fim da manipulação dos comandos da argola e do seu próprio bracelete, o sartânio injeta um micro sensor abaixo do couro cabeludo, na base da cabeça do sideroniano.
Veothar está ali indefeso. Atrás dele, um Monsenir estático, incapaz de sair do torpor mental que se encontra. A frente, o Ancião Líder bufando de raiva. Em volta, vários feixes de energia espiritual. À mesa, ainda intacta, prestes a explodir quando o lapso temporal acabar, um Josah tranquilo, olhando a cena com um sorriso sorrateiro envolvendo o cachimbo. E a sua frente, uma Agnar brilhante.
- Não tem razão para essa violência! A insegurança, o medo, a fraqueza do chefe de Insag vai tornar fraca a sua camuflagem! Estou alertando! – fala Veothar com dificuldade.
Os sartânios o largam. Já tinham ativado o monitoramento mental na base de sua cabeça. A sala estava cheia da energia dos ancestrais de Insag quando os três invasores da Aliança Escorpião retiram os aparelhos dos pescoços dos dois sideronianos.
– És agora parte do pacto, velho! Quebra de acordo tem preço alto, não esquece! Josah e Agnar conhecem o que é nossa vingança! – o sartânio que já o conhecia adverte antes de sair junto com seu par. O Ancião Líder já tinha se retirado da sala antes, calado, apressado e irritado.
Veothar está atônito, vê tudo parado, tudo estático ainda. Vê Monsenir de cabeça baixa. Apalpa a base de sua cabeça, sente o sensor ondulando o dedo e a pequena ferida que fez. O nariz sangra e sua cabeça dói. Vê todas aquelas luzes em volta, toda a sala lotada de energia. Vomita forte, tonto, coração acelerado, cansado...
Não sabe o que fazer, sente-se derrotado. Tem medo de pensar: estava sendo monitorado... Se contorce internamente, se vê perdido, sem saída, sem esperança depois de toda aquela violência. E vê Agnar se colocar entre ele e a mesa. Procura nela uma ajuda. Estende a mão...

De repente, o lapso termina, e o tempo volta a andar com brutalidade. A jarra de água ao lado de Monsenir finalmente se esparrama no chão. A mesa, os pratos, a cadeira, as prateleiras da estante, os objetos, tudo o que Astozeu havia murrado em seu acesso de fúria explode com vigor incrível, balançando toda a estrutura da casa.
Agnar fecha os olhos e abre os braços. Os espíritos em volta se movimentam vertiginosamente. Veothar e Monsenir, em um reflexo instintivo, viram-se de costas para proteger-se. Vários destes destroços passam por Agnar e atingem violentamente os dois.
Uma espessa prateleira de madeira maciça atinge a base da cabeça de Veothar, o arremessando para o chão contra o armário próximo à janela.
O vento volta a soprar, a poeira, as plantas, os mosquitos, o barulho do dia, o relógio, tudo volta a se normalizar, como se houvesse passado apenas 1 segundo daquela manhã.
Monsenir se reestabelece do susto e das dores do que o atingiu. Percebe que, ao seu lado, Veothar estava caído. Sente o coração acelerar, como se tivesse feito um esforço físico tremendo. Sua vertiginosamente e sente-se enfraquecer. Tenta se mover para junto de Veothar. Balança o corpo do amigo com as últimas forças que tem, tenta reanimá-lo, mas não tem resposta. Até que também desacorda.
Veothar estava com o corpo ali, abatido por destroços da fúria do Ancião Líder. A prateleira pegou em cheio na sua nuca. Aquele evento surreal o levou de volta ao invisível.
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