32 - DE VOLTA AO DEVIR SEM TEMPO
- E. J. Eluan Jr
- 7 de fev. de 2021
- 4 min de leitura
Atualizado: 21 de mar. de 2021
Veothar estava novamente no invisível, naquela mesma estrada por onde sua mente tanto vagou sem rumo nos anos de coma. Aqui, na sua mente, não há tempo. E ela vaga no devir que sua alma conduz. E dessa vez, a estrada é a que leva à Insag. Não é no Templo de Ethar que ele busca chegar, é na tribo de Marieh.
Ele caminha, puxando o cavalo. Ali no invisível, nas profundezas de suas crenças, ele tem suas duas pernas. Seu companheiro de viagem, o meta-humano recuperado pela Dra Heliar, não está mais com ele. Como na viagem real que teve na matéria, ficou em outra tribo: Amagor.

O caminho é um deserto, feito assim pelas consequências das batalhas. Assim como desejava chegar ao Templo nos delírios de seu coma, agora desejava chegar a Insag. E não consegue chegar. Está pesado, triste, desesperançoso. Como da última vez que nos encontramos, ele me encontra novamente sentado a um banco na beira da estrada. Ele para. Está entristecido, amedrontado, percebe minha presença.
- Tenho que... que chegar em Insag... por que não chego? A estrada leva à Insag... Mas... não sei... Eu não devia ir pra lá, não posso ficar lá... Eles agora sabem o que penso. São mais fortes do que eu... Não posso pensar o que penso em Insag. Não tenho a força de Monsenir. Não consigo me controlar em pensar o que eles querem que eu pense. Eles saberão o que sei... a base deles, os reféns, o ataque meta-humano que vai acontecer, o misterioso ser que está lá embaixo que é nossa proteção, a importância de Marieh... eu não podia estar pensando nessas coisas... eles me ouvem. Eu tenho que chegar lá, mas não posso... não posso estar em Insag, por que estou indo pra lá?
Larga a guia do cavalo e passa a bater em sua própria cabeça com raiva. Senta-se novamente cabisbaixo à beira da estrada, de frente para mim.
- Você sabe que eles não são fortes. Você viu o que os olhos não veem: o Ancião Líder por dentro. São tão pobres que precisam de violência e agressividade para parecerem fortes.
- Eles nos anularam, a mim e a Monsenir. Eu coloco a tribo em risco, saberão de tudo o que sei. Agora, nesse momento, podem aparecer novamente aqui, na minha cabeça, nesta estrada, como fizeram outras vezes. Não consigo chegar...
- Você está atormentado. Teve uma experiência ruim. Você pensa carregar um peso que não está sobre seus ombros. Você não está em perigo. Nem está colocando a tribo em perigo. Você tem a companhia de seres que não deixariam isso acontecer. Você tem um propósito maior que as pretensões dos Escorpiões. Você tem aliados poderosos.
Por nossa volta, luzes vão se chegando aos poucos. Luzes dos ancestrais kampfas que estão neste mundo desde o começo da vida aqui. Também de seres poderosos, presentes no destino de cada um, governado por forças ainda longe de serem reconhecidas plenamente pelas consciências viventes na camada da carne. Também ancestrais de Insag e da casa de Veothar.
- Agnar... ela voltou! - fala Veothar reconhecendo a luz da chefa da tribo, em meio aos inúmeros seres que o cercam - O que ela fez, na sala, não impediu que os objetos me atingissem.
- Ela agiu junto com outros seres que você talvez não entenda ainda.
- Não deu certo... tive má sorte, Agnar! Algo me atingiu em cheio. Estou aqui, agora, novamente aqui... não sei se tenho forças para voltar à carne... – fala Veothar se dirigindo a ela.
- O acaso é a melhor arma dos seres que atuam nas camadas do invisível, Veothar. O que julga “má sorte”, foi sua salvação e sua liberdade – Veothar me olhou com curiosidade e com o início de outro brilho na alma – O objeto que atingiu sua cabeça danificou o sensor. Você está livre do monitoramento dos Escorpiões!
Ao ouvir minha voz, Veothar vai recompondo maravilhosamente sua energia, volta a brilhar ao se dar conta do que de fato aconteceu naquela sala, de como o invisível age a favor de uma providência manipulada por seres que estão ali, o rodeando, mais próximos a ele do que poderia imaginar, guiando destinos de forma incompreensível muitas vezes para quem é apenas uma formiga em meio a um jardim regado por quem sabe o que precisa ser feito
- A porta de sua percepção está aberta – continuo. E você pode acessá-la. Aqui, nesta camada, entre o viver e o morrer, você é forte, Veothar. E cada vez que vem aqui, fica mais forte na carne também.
- Então eles não podem me ler... e abre um sorriso flamejante, enquanto aquele ser reluzente que o protege surge vibrante, se misturando a sua figura, o abraçando como uma mãe, o envolve... – Eu sei que parece absurdo. Mas me diga, quem sou eu?*
- Eu não posso dizer. Mas posso ajudar você a sentir.
* Trecho de uma das músicas contidas na playlist INSAG no Spotfy
Há um bom tempo tenho escrito e ilustrado um capítulo totalmente novo por semana. Ou seja, sem recorrer aos textos que fiz no passado. Esse ritmo vinha se cumprido com disciplina, apesar de alguns poucos atrasos. Mas de 28 de novembro até hoje, 07 de fevereiro, se fez o maior tempo sem uma publicação. DE VOLTA AO DEVIR SEM TEMPO é agora publicado depois de um dezembro e um janeiro turbulentos por conta de casos de COVID em pessoas muito próximas e também pela perda brutal de alguém muito querido e amado, meu sogro Mário Honda, que afetou profundamente emocionalmente a todos nós próximos a ele. Meu sogro agora está de volta ao seu próprio devir sem tempo, nas alturas,…