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39. SENTIDO

Foto do escritor: E. J. Eluan JrE. J. Eluan Jr

Atualizado: 29 de mai. de 2021

Foi um sonho muito real, muito vívido, não podia ignorar. Ficou muito tempo olhando para o teto, deitado, pensativo sobre o que viveu dormindo. E algo ficou ecoando em sua cabeça, mais forte que tudo: alguém do outro lado, o lado da Aliança Escorpião, estava lhe ajudando.


Não fazia sentido dentro de tudo o que sabia sobre aquela raça alienígena. Mas talvez este aliado improvável tenha impedido, de alguma forma, que seus pensamentos tenham chegado no comando central deles.


Mas afinal, o que fazia sentido em tudo aquilo que vivia há pelo menos 40 anos? Agora, depois de remoer aquele sonho confuso e deixá-lo aceso em sua memória, o que mais Monsenir quer é fazer parte da festa que grita do lado de fora de sua casa. Está mais leve, mais seguro depois do que viveu em pleno sono. Banhou-se, vestiu-se com a túnica que todos ali se vestiram em homenagem aos 30 anos da tribo a à sua chefa Marieh, pintou-se como também a tradição kampfa pedia, e foi à festa.


Ao abrir a porta da casa, os tambores chegam bem mais forte aos seus ouvidos e inundam sua alma. Tudo se passa na roda central, há pouco mais de 200 metros de sua casa.



De longe vislumbra as luzes das tochas suspensas, a poeira levantando, a dança alegre das pessoas em movimento circular. A festa invade todos os seus sentidos. Sentia o cheiro dos assados, do mingau, dos bolos e pães. Sentia o cheiro das ervas aromáticas que queimavam, sentia o calor, do clima e das pessoas. Sentia o chão tremer com o grave dos tambores e o entusiasmo daquela gente na festa cujo preparo teve seu comando ao mesmo tempo determinado e doído. Afinal, Agnar tinha partido há apenas 4 dias, Veothar estava sob cuidados médicos e ainda precisava conviver com a pressão dos sartânios em sua cabeça.


Monsenir desce os degraus de sua casa e caminha com segurança ruma à festa, decidido a não pensar em nada, só sentir! Sua disciplina militar sempre limitou seus sentidos e sentimentos. Mas agora não, agora era hora de deixar a racionalidade de lado. Até porque ela era monitorada. Eram os pensamentos que deveriam ser soterrados por tudo aquilo que chegava em seus sentidos.


E conforme se aproximava, apertava o passo. De longe, viu que muitos já percebiam sua aproximação, como se estivessem atentos à sua casa, esperando o momento que saísse. Uma das pessoas era Nelis, que, junto com muitos outros, se descola da multidão e vai ao encontro dele.


Monsenir passa a correr, não quer mais perder tempo – Onde tu estavas, criatura? Todos estavam sentindo tua falta – briga carinhosamente Nelis, com um sorriso que escapa do rosto sério.


Monsenir apenas a abraça forte. Aqueles que se adiantam em recebê-lo o aplaudem, chamando a atenção de muitos outros. Monsenir então vai cumprimentando, abraçando, apertando mãos enquanto se aproxima da roda central, demonstrando um calor humano que nunca tinha expressado antes.


Na medida que as pessoas percebem sua chegada, aplaudem e saúdam a aproximação do chefe interino, reconhecendo sua importância, sua liderança. Alguém lhe entrega um copo de cerâmica com jombah, a bebida inebriante que fazem com maestria, enquanto ele entra na roda de dança, o ponto central da festa, embalada pelo batuque de 30 tambores de couro de diferentes tamanhos, instrumentos de corda e sopro acústicos misturados a outros sintetizados eletronicamente. A cantoria era comandada por um e seguida por todos.


Não havia coreografia, não havia regras. A dança apenas se movimentava de forma circular, como uma correnteza em redemoinho em que todos são levados sem controle pela força de todos. Monsenir deixa-se levar. Já não era mais facilmente reconhecido no meio de tantos que estavam com a mesma roupa. Se misturou a todos e todos dançam como se fossem um, cantando, pulando, suando e extravasando naquela noite nublada, iluminada por 14 grandes tochas suspensas por torres de dez metros, cada uma erguida pelos membros de cada casa de Insag.


Depois de mais de 30 minutos, misturado à dança circular e à alegria de todos, ao passar novamente próximo ao Templo dos Ancestrais, Monsenir percebe algo distante da atenção de todos que estavam ali: Veothar, sentado no chão sob a sombra do teto do templo. Imediatamente, Monsenir movimenta-se em meio às pessoas, tentando se desvencilhar daquela correnteza circular de gente para conseguir sair da roda da dança.

Consegue sair de forma despercebida, até chegar na sombra do templo onde estava Veothar sentado.


- Veothar! Acordaste! Como tu estás? - pergunta, se agachando frente a frente ao amigo que tem os olhos vidrados no nada. Sorrindo, ele responde:



Monsenir senta-se em frente a ele para tentar vê-lo melhor naquele ambiente mais escuro. Percebe o olhar estranho que não o encara apesar de estar tão perto do seu campo de visão.


- Que bom te ver aqui... Mas, como te sentes?


- Cego dos olhos, fraco do corpo, vivo da alma e enxergando mais do que poderia antes.


- Estás cego?


- Apenas o sentido da visão me embaça. Mas me clareia mais o sentido de nossas vidas. - e dá uma pausa antes de prosseguir. Abre um sorriso e prossegue - Monsenir, precisavas ver o que consigo ver sem visão. Tua tribo é linda! Que energia! Quanta vida tem aqui! É tão forte que levanta até os confins do espaço.


Monsenir só consegue ouvir. Se emociona! Estava sob o efeito da bebida, do sonho, do quase suicídio, do batuque, do amor pela tribo... continua a ouvir o Mensageiro do Divido.


- O que vou te dizer já deveria ter te falado antes. Eu não tinha isso claro em minha alma. Antes não fazia sentido para mim, mas agora faz: precisas salvar essa gente! Precisas tirar Insag da tribo.


 

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