- Engraçado... eu já ouvi o que estás me dizendo... Agnar me disse a mesma coisa num sonho que tive nessa noite – fala Monsenir sentado frente a frente com Veothar, à sombra do Templo dos Ancestrais, enquanto a festa dos 30 anos de Insag ferve a alguns metros deles. – ela me falou que eu precisava tirar todos da tribo... e manter a tribo dentro de todos...
- Também relutei em entender isso. Mas, por tudo que vivi fora da matéria, não tenho mais dúvidas: Insag está em perigo.
- O que te dá tanta certeza? Foi apenas um sonho meu. Pode ter sido também apenas um sonho teu.

Veothar, que tinha o olhar vago para o nada, cego no mundo físico mas atento às energias que eram invisíveis à matéria, fecha os olhos e sorri antes de falar.
- Esta festa toda... Estas tochas suspensas em torres, são 14 ao todo. A dança circular, a poeira levantada, a alegria de toda essa gente... A tua alegria na festa, teu rosto pintado... As roupas que lembram as dos reis kampfa... Tudo isso eu vi...
- Como assim vistes? Como podes me descrever isso assim, do jeito que está acontecendo? Acabaste de me dizer que estás cego...
- Eu estive aqui em espírito antes de estar em carne, enquanto estava sedado, em um sonho, assim costumamos chamar estas situações. O que pude enxergar antes, no sonho, é tudo o que não consigo enxergar agora aqui, acordado. E se estás me confirmando que o que te descrevo está correto, sem enxergar com os olhos, então o que vi em espírito antes era a verdade. Por consequência, tudo que vivenciei em minha viagem fora do corpo também eram ou serão em grande parte verdades. E preciso te dizer tudo que precisas saber...
Repentinamente, Monsenir coloca a mão na boca de Veothar, calando-o – Não! Não te arrisca! – Veothar entende a atitude e o medo de Monsenir: os sartânios estariam neste momento os monitorando novamente. Mas Veothar tranquiliza o amigo, tirando a mão de Monsenir de sua boca.
- Não te preocupa! A mim não podem ouvir. Porque o acidente que me tirou a visão também tirou deles o monitoramento de meus pensamentos. A ti também não conseguirão ouvir, nem ver, nem sentir. Porque toda essa maravilhosa energia que Insag irradia agora até os céus é tão grande que ofusca qualquer monitoramento que venha de Escorpiões ou de meta-humanos.
- Preciso entender isso tudo! O que viste então neste teu sonho?
Veothar passa a relatar as principais vivências que teve no invisível. Apenas as que interessavam à urgência da compreensão do expurgo. Falou sobre o meta-humano amigo de Agnar, a quem convencionaram identificar como Anoriah, pois seu nome real é um longo código numérico difícil de ser memorizado por uma consciência não meta-humana. Também contou sobre a missão eminente do exército de Anoriah em Insag e sobre alguns detalhes da base abaixo da tribo.
E ao saber que a mãe de Marieh não morreu, Monsenir, que sonhou com ela, fica surpreso e emocionado. E passa confiar mais em seu próprio sonho.
- Haia está viva! Procuramos tanto por ela! Josah a amava tanto... Ele morreu logo depois que ela sumiu. Foi levado pelo Mesag, estava procurando Haia...
- Há algo especial em Haia e Marieh. Algo que não entendemos.
- No meu sonho, vi Haia com Marieh. Vi também Agnar... e vi um sartânio, junto com Marieh... um aliado sartânio... então, se seus sonhos são verdadeiros, Veothar... se meus sonhos também são, então pode ser verdade: temos aliados lá embaixo!
- Esta é uma informação preciosa para nós! Seu sonho também foi uma mensagem. Uma mensagem importante que precisávamos saber!
- Mas, sair de Insag? Como poderemos nos curvar assim? Veja o que sartânios e meta-humanos fazem conosco, quando manipulam o tempo, quando invadem nossos sonhos, quando controlam nossos pensamentos... ficamos por muito tempo reféns dos milagres que eles podem fazer e nós não... Agora temos você. Agora temos pessoas do outro lado, nos ajudando, nossos ancestrais estão nos ajudando, através de sonhos! Um meta-humano nos ajuda, um sartânio nos ajuda... Mais de um talvez! Se houver a batalha que se anuncia aqui, os meta-humanos vão nos proteger!
- Não conte com isso, Monsenir!
- Não podemos sair de Insag! Temos que enfrentar!
E fica um silêncio entre os dois, encoberto pelo frenesi da música da festa.
- Sair ou não de Insag é uma decisão de vocês, não posso interferir nisso. Mas preciso que você seja parte do plano que firmamos em Amagor.
- Foste a Amagor?
- Fui. Fora do corpo, como um espírito. Preciso que preste muito atenção ao que vou te relatar. Temos que aproveitar a camuflagem da energia da festa. Não teremos outra oportunidade para te dizer o que preciso para que faças parte do plano.
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