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46 - RIO ADENTRO

Foto do escritor: E. J. Eluan JrE. J. Eluan Jr

Atualizado: 29 de jan. de 2023

Sob a escuridão do templo dos ancestrais, pouco antes da chegada dos primeiros raios de sol, Monsenir desperta de seu sono. Está desorientado, confuso. Não sabe como foi parar ali. Lembra mais do que viveu no sonho do que na vigília. Não tem em sua memória consciente o que experenciou há alguns minutos com Veothar e Anoriah, que, aliás, foi quem o deixou, dormindo em profundo sono, ali no templo, invisível a tudo que acontecia nos festejos.


A encenação teatral está prestes a começar. É o ponto alto, o encerramento, o grande momento depois de uma noite inteira celebrando a fundação daquela organização social foragida, no meio da floresta, da guerra do universo.


É o trigésimo aniversário. Agnar, a chefa da tribo, se foi há poucos dias e o texto que será encenado foi escrito por Marieh, a sucessora. Tudo neste ano é muito especial.


Mas 40 anos antes, numa madrugada marcante como esta, aconteceu um diálogo seminal que levaria à ideia da tribo. Eram dias cheios de incertezas e conflitos entre os Nasir. O teatro de Marieh começará daqui a pouco, exatamente retratando este momento tão importante para o nascimento da Insag.


Na minha condição espiritual, pude sentir a inspiração deste texto brotando da alma de Marieh, formado dos relatos do próprio Josah e de outros relatos daqueles que interpretaram a interpretação de Josah.


Mas por esta mesma condição que me encontro, pude voltar no tempo e ver o fato, tal qual aconteceu sem os filtros da linguagem das lendas contadas, apenas com os filtros de minhas percepções sem carne.


Andir, avô de Marieh, era um foragido, que tornou foragidos, juntos com ele, esposa, filhos, nora, irmãos e neta. Tinha assassinado o líder da própria nação do qual era assessor próximo. Um ato que mudou a história de seu país e de sua casa.


O ano era 4200. Josah, com vinte e cinco anos na época - bem desfrutados no conforto dado pela carreira de sucesso do pai - estava envergonhado, decepcionado e inconformado com toda aquela situação pela qual sua casa passava: escondendo-se das autoridades por culpa do crime de Andir.


Caminhavam os dois, só os dois, pai e filho, pelas ruas escuras na madrugada, em um bairro esquecido de Nemansky, a procura de água em alguma torneira que normalmente equipava os pátios das casas, para matar a sede dos deles, escondidos em uma loja abandonada a duas quadras.


Nessa madrugada, Josah rompe o respeito ao pai. Grita baixo para não acordar a vizinhança, rasgando a voz com um sussurro cuspido.


- Assassino! Não consigo entender o que o senhor fez! Não consigo! Nos deixar nessa situação? sem ter para onde ir? vergonha!... Assassino! Culpa sua! Matou! Matou! Matou! – Josah larga as garrafas vazias no chão e empurra três vezes o pai, que permanece apático. - Traiu tudo o que mais se preza! Traiu as verdades de Ethar, dos templos, dos ancestrais, dos kampfa, dos homens, dos vizinhos, dos amigos, da casa...! Traiu sua casa!

Josah não contém o choro que há tanto prende. É tanto soluço que trava o corpo.


Andir fica paralisado por algum tempo. Ainda tenta ser altivo, busca uma raspa de autoridade paterna... Mas se rende ao pedido de perdão, porque era o que lhe restava na superfície da culpa profunda que sentia pelos seus.


- Tu tens razão.... Eu traí todas as leis.... Desculpa... Todas as verdades que sempre ensinei, que os sacerdotes Klir ensinaram, que os antigos reis e rainhas kampfa passaram para meus avós... o que os homens transformaram em leis... traí tudo isso aí....


Josah se encosta em um poste, senta-se e continua chorando, de cabeça baixa. Andir, constrangido, continua.


- Eu devo ser punido por isso. Mas antes quero que me entendas...


- O senhor já explicou! Já falou! Dos sonhos, os tais seres estrangeiros do planeta... Se culpa, se desculpa... mas nada apaga o que fez!


- Mas talvez não te fiz entender o principal. O ato..., o ato de tirar uma vida, o ato em si, não tem perdão...


- Eu realmente não consigo... não consigo perdoar. Não dá!


- É, eu sei! Mas precisas entender, me ouve...! Precisas entender além do ato. – Andir passa a falar mais rispidamente com o filho. – Eu não vou estar aqui! Eu vou ser punido pelo que fiz! Mas tu vais estar. Tens que entender o que vivi para chegar a matar Haleb! Tens que entender! Para conduzires nossa casa nesse momento tão difícil que ainda está por vir. É tu quem vai conduzir!


Andir também senta-se. Aproveita o silêncio para pensar um pouco antes de falar.


- As verdades... Algumas se solidificam, viram samaúmas, ficam raízes profundas entre os homens. Não matar é uma destas verdades. Apesar de fora do meu controle, eu traí essa verdade. Mas mesmo uma verdade sólida como esta, ela se altera, dependendo do momento. E no momento, estamos em guerra! Imagina só? numa guerra? Matar, por mais nefasto que posso parecer agora, passa a ser uma verdade dura. E então? Matei. Matei sim. Para, não morrer! Para muitos outros não morrerem!


Mais alguns momentos de silêncio entre os dois se passam até Andir continuar.


- Os antigos kampfas diziam: verdades são Insag.


- “Insag”? que diabos é “insag”? - perguntou Josah, com pouca paciência e pouco interesse das coisas e palavras dos seus ancestrais.


- É uma palavra kampfa. Não tem outra palavra que substitua. Pode ser entendida como rio adentro. São suas crenças de dentro, que te formam. Para os Kampfa, verdades são rios que entram em nós. Nunca é o mesmo. Os fatos mudam nosso pensamento, como a água muda o rio. É preciso lidar com a singularidade de cada momento para saber navegar nesse rio. É preciso respeitar suas margens, é preciso respeitar sua correnteza, sua vazão e aprender a navegar com todas as variáveis de cada momento. A água que passa nesse rio nunca é a mesma, apesar de parecer. Se agarrar às árvores, às tradições envelhecidas que não respeitam a mudança dos tempos e o curso do rio, pode até lhe matar. Porque até árvores caem com a força de uma correnteza.


Fica um breve silêncio. Josah continua balançando a cabeça negativamente, com expressão de reprovação, até falar mais calmo.


- Nunca disseste o que realmente aconteceu contigo...


- Uma hora dessas vou te falar tudo o que vivi. Porque tu vais ter que levar nossa casa para fora de Nemansky, para um esconderijo seguro. Eu tenho certeza. Se entenderes o que está por vir, vais saber formular novas ideias. E vais poder rever teu julgamento sobre mim até. As tradições dos klir, sobre Ethar, sobre os templos, as religiões, as leis atuais, tudo isso está ruindo nesta enchente de revelações que todo o planeta está prestes a ver e que até agora só eu e poucos viram.


A expressão de Josah já não era mais de negação. Estava cabisbaixo, usando um galho de árvore para riscar o chão em traços contínuos desleixadamente, apenas para ter com o que se ocupar enquanto pensava.


- Eu digo mais. Eu creio que a cultura kampfa pode aflorar renovada se for bem resgatada. Com novas águas, dentro desse novo rio. Porque estas novas verdades, este insag que está nascendo, que está aqui, dentro de mim, vai transbordar em ti e dentro de milhares de outros nos próximos tempos. Se souberes navegar neste novo rio dentro de ti, vais até conseguir juntar outras casas em teu barco.


Andir levanta-se e pega de volta o garrafão vazio que levava – vou procurar uma torneira. A gente precisa de novas águas, para matar a sede.


Os fatos que vieram logo depois: o assassinato de Andir, a exposição dos povos de fora do planeta, a guerra intensificada, a revelação de que a criação da vida em Sideron veio de outros povos, a crise de crenças nas religiões e em Ethar... Cada fato fazia Josah relembrar a palavra: “insag”.


 


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