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25. LAVRADO NA ALMA

Atualizado: 16 de fev. de 2021

A menina Marieh sonhou intensamente naquela mesma noite. A mesma que Veothar acordou de seu agitado sono no meio da madrugada. A mesma madrugada que o espírito de Josah voltou à camada da matéria e conversou tão tranquilamente com ele.


Marieh se via deitada novamente no chão da tribo, velando Agnar, olhando para os céus, observando as estrelas que se confundiam com algumas faíscas que fugiam das chamas que cremavam o corpo de sua irmã.


Mas dessa vez, ela vê uma das estrelas se mover. E não era em linha reta. E não era nem faísca, nem lixo do espaço, nem veículo meta-humano, nem sol... Ela move-se aleatoriamente, fazendo curvas, mudando rota. Intensifica seu brilho conforme desce. Sim, a estrela desce e se aproxima da menina deitada no chão, até seu brilho ofuscar tudo que está próximo a ela.


Marieh está sentada apoiada sobre os cotovelos, quase deitada, olhando a pira crematória de Agnar. Ela fala com alguém ao seu lado, que também está sentado no chão. No sonho, diz o mesmo que disse à Nelis na madrugada do funeral.


- Tem tanta coisa que a gente não sabe direito o que é... – Marieh puxa o assunto, dobrando os joelhos para junto do corpo e abraçando as pernas. – para onde foi Agnar?


Eu estava ali, como na vigília, junto a ela também no sonho. Podia ver o ser que estava a amparando por trás, acariciando seus cabelos. Parecido com aquele ser de luz que vi protegendo Veothar. No entanto, o que protege Marieh é mais brilhoso, mais lindo, de um azul turquesa resplandecente. Quase se mistura à menina.


Me mantenho à distância, em pé, olhando a cena. Procuro não ser visto. Diferente do que presenciei na madrugada anterior, no sonho não era Nelis que estava ao lado de Marieh. Era um ser também de pura luz, poderoso. Tento reconhecê-lo em meio à tantos brilhos que cercam Marieh. Ele responde de forma diferente do que Nelis respondeu na vigília.


- Não se preocupe. Agnar está sendo cuidada. Ainda não acordou para a nova vida. Brevemente você voltará a compreender os ciclos da existência e suas camadas. Mas agora ainda não. Minha querida! Já vagamos por tantas eras. Já cruzamos por tantas vidas neste lindo planeta. É um alento a ver novamente na carne. Nesta camada da vida que está agora, você não pode ter a lembrança do que ainda não experimentou neste corpo encarnado. Seu espírito ancião já acumulou por tantos e tantos milênios grande sabedoria que não é acessada conscientemente por sua memória carnal, mas que está plantada em você. Se aprender a ouvir seu coração, se confiar no que está lavrado em sua alma, fora da memória consciente, deixará a vida lhe dar as respostas necessárias para seguir sua jornada nesta existência tão importante.


De meu ponto de vista, vejo Marieh de lado, encolhida em seus joelhos. Por trás dela, o ente de luz turquesa. O ser que fala está ao lado da menina, mas, para mim, encoberto por ela e ofuscado pelo próprio brilho e o do ente turquesa. Tento um ângulo que consiga reconhecer o dono desta voz tão musical, acalentadora, íntima, vibrante, zelosa. Caminho de forma a quase ficar de frente para eles, no afã de reconhecê-lo. E quando finalmente minha visão o distingue, vejo que ele me olha apesar de falar com Marieh. Apenas o sinto. Sinto seu olhar. Sinto o que diz, sem as paredes das palavras. Não o reconheço, apenas o sinto.


- Já vagamos por muitos mundos, minha querida! Plantamos sementes em civilizações que precisavam de uma luz guia para seguir em frente. Está chegando a hora de cumprirmos nossas últimas missões neste planeta tão importante para os rumos de tantos outros.


Me olhava profundamente. Me encheu de um sorriso acalentador, nunca experimentado por mim. Me senti com ele em uma mesma frequência, inexplicável. Como se o olhar, a voz, a presença, aquela luz, me enchesse de vida.


A menina continuava o ouvindo como se fosse natural, dentro da realidade de seu sonho.


E de repente, não estávamos mais no velório de Agnar. Ele levanta-se junto com ela e caminham, de mãos dadas. Era um lugar de paredes frias, de teto longe e rochoso, um corredor. Ele a leva pelas mãos.


Ao final do corredor, uma mulher, de joelhos, a espera. Marieh fica aflita, emocionada ao ver a mulher. Tenta chegar a ela, mas não chega. Entristece o coração, mas, apesar disso, sinto resignação nela. Não é a primeira vez que sente aquilo.


- Marieh! – a voz de Mishna a chama. – Marieh, querida, tudo bem contigo?

A menina de repente desperta do sono pela voz da tia que também balançava seus ombros.


- Ahm? ... Oi! Mãe? ... – a menina reage assustada, olhando para Mishna.


- Não, meu bem! É tua tia, sou eu! O que aconteceu Marieh?


A menina não estava de olhos fechados quando Mishna acordou com a voz dela. Estava sentada na cama, de olhos esbugalhados, olhando para o nada no meio daquela mesma madrugada, falando uma língua desconhecida.


- Não sei, tia... não lembro! - responde confusa.

 


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